Em uma bicicleta você nunca sabe o que vai vir na próxima curva, quando o céu vai abrir e ampliar sua visão ou quando os morros e montanhas que você esta pedalando vão te levar a ver o mar. Quando chegar aos 50, eu provavelmente vou querer pedalar em qualquer clima. Devo colocar qualquer roupa que possuir e pedalar apenas pelo prazer de ver as coisas boas que estão para serem vistas.
Uma bicicleta é um transporte extremamente desejado por todos nos que temos um coração aberto para novas sensações. Nossas primeiras bicicletas eram para pular meio-fios e quebra-molas, alem de passar por poças de chuva e causar uma grande cascata de água por todos os lados. Era liberdade de ser supervisionado, de ficar preso em carros e ônibus na intenção de chegar a algum lugar. Era nossa primeira vez que não dependíamos de nossos parentes para ir ao cinema, ou a casa de algum amigo. Simplesmente, era a primeira vez que escolhíamos a nossa própria direção.
Foi a primeira maquina de duas rodas que nós mudávamos de direção por nós mesmos. E talvez por essa razão, nos tenhamos uma intensa afeição por ela, assim como uma memória especifica de cada bicicleta que eram nossas no decorrer dos anos. Eu mesmo, já tive varias bicicletas no decorrer dos anos, uma das que mais me marcaram foi uma antiga Caloi Nylon que tinha umas rodas pesadíssimas, mas muito resistentes. Quase consigo sentir que quando pedalava o dia inteiro nela, o punho que era de um material de borracha que chamávamos de “chiclete”, “punho chiclete”, causava calos fenomenais depois de estar agarrado nele por horas a fio. Elas ficam como velhas amigas, que você não vê há anos, mas que continua vívida na memória. A familiaridade física que você sente em uma bicicleta não se compara a nenhum outro veiculo, não interessa o quanto seja bom de dirigi-lo. Tem horas em que poderia dizer que quase sinto como se a minha bicicleta fosse uma extensão das minhas pernas e braços. Passados mais de 20 anos e continuo sentindo exatamente como era a sensação dos meus tênis velhos agarrados nos pedais da minha BMX cheio de dentes de ferro.
Mesmo depois de um dia intenso em uma bicicleta, atrás de cada dor e stress de um pedal intenso, tenho a sensação de prazer e tranqüilidade que eu poderei pedalar novamente. Pedalamos-nos para provar que em uma era cientifica e altamente mecanizada, o corpo humano continua sendo o que há de mais especial. No ciclismo, não há proteção especial de metal para proteger-nos dos elementos da natureza, nós temos somente uma leve e fina proteção de lycra, e isso faz desse esporte algo tão severo quanto charmoso. Os ciclistas experimentam beleza e grandes visões do mundo de uma forma diferente. As decidas a 80 km/h causam uma sensação impar de liberdade, medo e fragilidade. Isso nos faz lembrar que somos humanos e que toda a beleza do mundo a volta esta também composta de algum perigo.
A bicicleta, não importando a tecnologia envolvida na construção da mesma ou quão avançada seja o material usado, continua sendo impulsionada apenas pelo esforço humano. Apenas suas pernas vão impulsioná-lo a lugares diferentes, você esta na sua própria força, e o limite é você mesmo quem impõe.
Nesse momento, eu ainda quero participar de corridas. Tenho essa competitividade constante em mim. Eu entendo que terei poucas oportunidades daqui pra frente de fazer um bom papel, então vou me agarrar como puder.
O mais importante é que podemos fazer um impacto positivo na vida de muitas pessoas, não apenas as levando para o nosso esporte, mas para qualquer esporte para dizer a verdade. Acho que esta ainda continua sendo a minha maior motivação.
Alberto Jara
